Opinião
Surpresa econômica
Publicado em: 07 de junho de 2021
Autor:Vivaldo Lopes

O crescimento do PIB do Brasil no primeiro trimestre, de 1,2% em relação ao último trimestre de 2020, surpreendeu positivamente os analistas econômicos, economistas, consultorias e bancos. Aparentemente, surpreendeu até mesmo a equipe econômica, liderada pelo Ministro da Economia, Paulo Guedes. Simplificadamente, o PIB mostra quem produz, quem consome e a renda gerada a partir dessa produção. Os cálculos do PIB utilizam deflatores internos para descontar os efeitos da inflação e refletem o crescimento econômico em determinado período de tempo. São apresentados sob a ótica da oferta (o que é produzido) e da demanda (como esses produtos são consumidos). Os dados divulgados pelo IBGE na última terça-feira (1º) indicam que o crescimento foi bem impulsionado pelo mercado externo, beneficiado pelo crescimento acelerado das economias dos Estados Unidos e da China, o que permitiu expressivo aumento das exportações e importações. A agropecuária, que cresceu de 5,7%,  expande a cada mês suas vendas para o mercado externo, surfando a onda do aumento pantagruélico do consumo chinês, melhora dos preços internacionais e câmbio favorável. A Vale vende, como nunca vendeu antes, minério de ferro para a China, ajudando a produzir sucessivos superávits na balança comercial do país. A indústria teve desempenho de 0,7% e serviços, que representa 73% do PIB, apresentou o menor crescimento, apenas 0,4%. Este é o setor mais afetado, pois necessita de mobilidade das pessoas para seu funcionamento pleno, especialmente nas áreas de turismo, lazer, hotelaria, viagens, restaurantes e eventos. Os baixos índices de isolamento social e quase nenhuma restrição para funcionamento das atividades comerciais verificados no início do ano, não foram suficientes para tracionar as operações do setor.

Pela ótica da demanda, o consumo das famílias, que tem sido o motor da atividade econômica brasileira, caiu 0,1%. Além do elevado desemprego, as famílias socialmente fragilizadas pela pandemia não puderam contar com o auxílio emergencial que foi suspenso em dezembro e somente voltou a ser pago em abril. O consumo do governo foi pífio, confirmando que as administrações federal, estaduais e municipais reduziram muito suas despesas correntes e investimentos neste início de ano fiscal. O governo federal teve o seu orçamento de 2021 aprovado ao final de abril. O investimento cresceu 4,6% confirmando a resiliência das empresas e empreendedores, mesmo em ambiente hostil sob os pontos de vista fiscal e sanitário.

Pesquisas feitas com economistas, consultorias e bancos indicavam queda da atividade no primeiro trimestre e projeções de crescimento de 4% em 2021. As revisões já foram efetuadas, passando a projeção de 5 a 5,5% de crescimento neste ano, demonstrando que o bom desempenho do primeiro trimestre exorcizou as projeções de pior cenário, prevalentes até o final de abril, de que teríamos quedas nos primeiros trimestres e expansão modesta no segundo semestre.

A recuperação verificada nos primeiros três meses é menos frágil do se previa, mas ainda guarda vulnerabilidades em sua composição. Parece um tanto “invisível” para as famílias de baixa renda que ainda convivem com nível elevado de desemprego e subemprego. O crescimento foi muito ancorado na formação bruta de capital (recomposição de estoques, insumos, máquinas e equipamentos, construção civil), na indústria extrativa e na ótima performance da agricultura. É muito difícil manter o crescimento sustentado sem que haja reação do consumo, que, por sua vez, depende da retomada do emprego e da renda. No radar do vôo da retomada do crescimento aparecem alguns sinais de nuvens como ameaça. Lentidão e incertezas no programa de vacinação, crise energética (conhecida demolidora de PIBs) e aumento da inflação. São ainda apenas sinais, mas que podem se transformar em empecilhos reais no segundo semestre, podendo frear o dinamismo do primeiro trimestre. São riscos administráveis e menos nocivos do que a desventura de retrações sucessivas.

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