Opinião
Reaquecimento a “la Nike”
Publicado em: 22 de maio de 2020
Autor:Vivaldo Lopes

O grande debate atual entre economistas, profissionais do mercado financeiro e do mundo empresarial é sobre qual será o formato da retomada da atividade econômica do país ao final do período mais tenso e intenso do isolamento social levado a efeito para combater a pandemia do coronavírus. Com a divulgação de indicadores setoriais da indústria, do comércio e de serviços, a cada semana as projeções das consultorias econômicas, academias e grandes bancos nacionais e estrangeiros surgem mais pessimistas. Nesta semana, em média, os relatórios dos bancos, consultorias e economistas apontam o aprofundamento da recessão e já indicam queda de 7,4% do PIB.  A reconhecida ausência de liderança política nacional que harmonize os esforços de governadores, prefeitos e empresas em ações integradas de combate à pandemia e a sinalização de um horizonte de saída da crise sanitária, ajuda a piorar o cenário econômico, pois dificulta o planejamento operacional das cadeias produtivas e inibe o investimento.

Essa liderança nacional deveria ser exercida pelo presidente e pelos ministros da economia e da saúde. O presidente não quer liderar ( ou não consegue ), não temos ministro da saúde e o ministro da economia apresenta insuperável dificuldade de dialogar e implantar medidas práticas que o grave quadro de crise exige. A falta desse norte bussolar deixa, por sua vez,  os líderes empresariais com baixa margem para ações proativas.

Nesse contexto, consolida-se a visão de que a retomada será mais alongada do que se imaginava inicialmente. O ministro da Economia, Paulo Guedes, que inicialmente demorou a dimensionar os reais estragos que a crise sanitária causaria na economia, afirmava repetidamente que a retomada seria em formato de “V”. Isto é, após uma queda profunda, o reaquecimento também seria rápido e forte. Forçado pela crueza da realidade, captada pelos indicadores econômicos, em reunião ontem ( 20 ), Guedes admitiu que passou a trabalhar com cenário otimista de que o retorno da atividade econômica terá um formato parecido com o bumerangue estilizado da logomarca da Nike, conhecida empresa de materiais esportivos, que se parece com um V, mas com a segunda perna alongada e levemente ascendente.

Pesquisa divulgada recentemente, que ouviu os executivos-líderes das maiores corporações mundiais, mostrou uma unanimidade que a pandemia provocará alterações profundas no mundo corporativo e exigirá alterações estruturais, novas habilidades e valores de seus líderes e acionistas. Suas preocupações mais marcantes podem ser assim resumidas: a) o comércio global sofrerá fortes alterações, com o aumento de medidas protecionistas pelas nações e alteração das cadeias de suprimentos para reduzir perigosas dependências estratégicas;  b) receio que uma segunda grande onda da pandemia possa atingir novamente países já afetados; c) aumento exponencial de falências com o consequente desaparecimento de grande quantidade de pequenas e médias empresas. As sobreviventes serão incorporadas por grandes grupos empresariais, aumentando a concentração empresarial e mercadológica; d) maior exposição a fraldes e ataques cibernéticos devido a necessária expansão do trabalho em home office, aumentando a insegurança corporativa.

Mantidas as devidas proporções, verificamos as mesmas ameaças presentes no mercado brasileiro, acrescidas de nossas idiossincrasias políticas e econômicas.

Como já afirmei anteriormente nesta coluna, em Mato Grosso os perversos efeitos econômicos e sociais da crise financeira foram mitigados pelo bom desempenho da principal locomotiva de nossa matriz econômica que é o setor agropecuário. Além de estar colhendo safras recordes de milho, soja e algodão, surfa a santa onda da forte apreciação do dólar frente ao real e rápida retomada da demanda da China por grãos e carnes. Mesmo assim, o excepcional protagonismo e acumulação de capital por um setor não evitará considerável volume de falências e incorporações. Mesmo com o grande esforço que a administração federal tem feito para prover liquidez às micro, pequenas e médias empresas, o crédito não chegou até elas pois os canais escolhidos foram inadequados, e as inapropriadas exigências dos bancos brasileiros também inibiram a contratação, ocasionando o chamado “empoçamento”, quando os bancos estão com grandes volumes de recursos disponíveis em suas tesourarias mas não emprestam diante de cenário de incertezas ou pura ganância.

 

Vivaldo Lopes, economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia.  É pós-graduado em  MBA Gestão Financeira Empresarial-FIA/USP  (vivaldo@uol.com.br)

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