Opinião
Mercado de capitais e crescimento
Publicado em: 29 de outubro de 2020
Autor:Vivaldo Lopes

O mitológico guru da administração moderna, Peter Drucker, cunhou em seu livro “A Revolução Invisível” (1975), o termo “socialismo de mercado” para descrever o fantástico crescimento do capitalismo americano a partir da modernização e popularização do seu mercado de ações. Drucker argumentou que os Estados Unidos promoviam uma gigantesca “revolução socialista” ao incentivar os seus cidadãos comuns a se tornarem sócios das grandes corporações por meio da compra de ações dessas companhias que floresciam e prosperavam no período pós-segunda guerra mundial. Teceu comparações com a União Soviética que praticava o chamado capitalismo de Estado, concentrando todas as atividades produtivas no poder público, afirmando que aquele modelo não se sustentaria no longo prazo.

 

No Brasil, o mercado de capitais teve início a partir de 1965, sob a batuta de Otávio Gouveia de Bulhões, Ministro da Fazenda e Roberto de Oliveira Campos, Ministro do Planejamento do Presidente Castelo Branco. Mas somente teve o seu grande salto qualitativo a partir dos anos 1990 e 2000 com a implantação do Plano Real (1994) que controlou a inflação e estabilizou a economia, mudança na legislação para permitir a entrada de investidores estrangeiros, internacionalização da Comissão de Valores Imobiliários (CVM) e da Bovespa. A consolidação e concentração do sistema bancário, após o choque do Plano Real e o avanço do programa de privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso também atuaram para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro. A partir do ano 2000 a Bovespa e a CVM modernizaram seus sistemas de governança e regulação. Implantaram um novo Plano Diretor do Mercado de Capitais e aumentaram o nível de exigências de gestão corporativa das empresas participantes. Hoje o mercado de capitais do Brasil tem governança e regulação reconhecidas com de excelente qualidade, está entre os mais modernos do mundo, sendo o melhor entre as economias emergentes.

Numa economia capitalista, como é o caso do Brasil, o mercado de capitais é constituído de um conjunto de instrumentos, instituições e agentes econômicos cuja missão é mobilizar recursos de poupança financeira de pessoas físicas, empresas e outras unidades econômicas que possuem excedentes financeiros e promover sua alocação eficiente para financiar a produção, a comercialização, o investimento das empresas e o consumo das famílias. Não fazem parte desse mercado os títulos da dívida pública e títulos de dívida emitidos pelas instituições financeiras, exceto as debêntures. Nos últimos anos, tivemos muitas modernizações institucionais e tecnológicas no mercado de capitais. Todas voltadas à proteção do investidor e garantia de condições competitivas para as empresas que participam ou que queiram participar desse mercado. Foram também efetuadas várias alterações na legislação tributária para facilitar e atrair os cidadãos comuns a participar do mercado de capitais.

Com a inflação controlada e a taxa básica de juros baixa, houve expressiva queda nos ganhos em aplicações de renda fixa como poupança, fundos DI, títulos do tesouro federal. Em consequência, notou-se fuga de investidores desse tipo de investimento. Mais pessoas passaram a investir em renda variável, como compra de ações e outros títulos mobiliários das empresas, aumentando consideravelmente a quantidade de investidores pessoas físicas na bolsa. A captação de recursos por meio do mercado de ações é a forma mais engenhosa e barata que o sistema capitalista já criou para as empresas implantarem projetos, aumentarem a produção e expandirem seus negócios, criando um circuito virtuoso que gera mais produção, mais lucros, mais empregos, mais renda e arrecadação de tributos. Mesmo tendo evoluído nas últimas décadas, o mercado de capitais no Brasil ainda apresenta forte potencial de crescimento, quando comparado com outras economias. São apenas 328 empresas que possuem ações listadas na B3, a maior bolsa brasileira. Em países como Canadá, Estados Unidos e Coréia do Sul, as empresas que têm ações ofertadas em bolsa superam 3.700.

No segundo semestre de 2020, muitas empresas brasileiras fizeram abertura de capital na bolsa e outras emitiram novas ações para se capitalizarem com vistas em 2021 que indica ser o ano da recuperação da atividade econômica, após o trauma econômico que está sendo 2020. Espera-se que o alinhamento dos astros da economia estabilizada, inflação domesticada, juros baixos, mais investidores no mercado de capitais e expectativa de crescimento permitam às empresas utilizarem todo o potencial de financiamento do mercado de capitais brasileiro, em benefício do desenvolvimento econômico do país.

Vivaldo Lopes, economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia. É pós-graduado em  MBA Gestão Financeira Empresarial-FIA/USP  (vivaldo@uol.com.br)

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