Opinião
Fundo do poço e recuperação econômica
Publicado em: 03 de setembro de 2020
Autor: Vivaldo Lopes

Nesta última terça (1º) o IBGE divulgou os dados do desempenho da economia brasileira no segundo trimestre de 2020. Como esperado, o PIB do país teve uma inédita retração de 9,7%, em relação ao primeiro trimestre e 11,4% comparado ao segundo trimestre de 2019. Foi a maior queda trimestral já registrada na história econômica do país. Um verdadeiro desastre econômico, causado por uma tragédia sanitária, trazida pela doença covid-19. Os dados estatísticos confirmam uma certeza e guardam uma esperança. A certeza é que o pior já passou. A economia atingiu o fundo do poço no mês de abril.  A esperança: o país parou de cair e a retomada das atividades a partir de julho garantem crescimento nos dois últimos trimestres do ano. O reaquecimento reduzirá um pouco os nefastos efeitos da necessária paralisação das atividades produtivas. Como consolo, podemos dizer que o péssimo desempenho da economia brasileira é tristemente similar à média da maioria dos países da OCDE, o clube dos países mais ricos, que tiveram queda de 9,8%. Alemanha teve queda de 10,1%, Estados Unidos 9,7%, Japão (7,8%). As exceções foram a China, que saiu rapidamente da pandemia e cresceu 11,5% no segundo trimestre e a Nova Zelândia, que caiu apenas 3,2%.

O IBGE ainda anunciou a revisão dos dados do primeiro trimestre, divulgados anteriormente. O PIB do primeiro trimestre foi recalculado de uma queda de 1,5% para 2,5%, demonstrando que a economia do país não era um potente avião começando a decolar quando foi abalroado pelo furacão coronavírus. A pandemia foi decretada, no Brasil, na segunda quinzena de março. Assim, o resultado do primeiro trimestre foi ruim porque a atividade econômica já capengava nos meses de janeiro, fevereiro e primeira quinzena de março, agravando-se com a evolução da pandemia.

A indústria foi o segmento que mais sofreu com a brusca paralisação, apontando queda de 12,3%. O setor de serviços retraiu 9,7% com a imposição de quarentenas e isolamento social, afetando áreas de turismo, viagens, transportes, lazer, restaurantes, hotelaria. Único setor que apresentou crescimento, de 0,4%, a agropecuária também decepcionou. A maior parte dos analistas, bancos e o mercado contavam com crescimento maior da agropecuária, em razão do aumento de consumo de alimentos, expansão das exportações para a China, desvalorização cambial, e, atendendo pedido das representações empresariais do agronegócio, o governo manteve a movimentação do transporte de cargas e abertos os portos marítimos. Ainda que pequeno, o crescimento do agro ajudou a amortizar a queda, que teria sido bem maior caso o setor também afundasse nas mesmas proporções da indústria e serviços.

Do lado da demanda, o auxílio emergencial colaborou consideravelmente para reduzir o tamanho do tombo. A administração federal injetou mais de R$ 165 bilhões na economia entre abril e junho, para atender 65 milhões de pessoas vulnerabilizadas pela crise, dando um pouco de gás para o consumo das famílias e compensando o recuo dos gastos do governo e a forte freada dos investimentos.

Considero como principais fatores que ajudarão a recuperação da economia brasileira no terceiro e quarto trimestres o reaquecimento da economia global, que comprará do Brasil, a redução do distanciamento social, que favorece o setor de serviços e a indústria, juros baixos e inflação sob controle, que facilitam a tomada de crédito pelas pessoas e empresas, expansão das exportações e a continuidade da renda emergencial até dezembro.

Paira ainda uma nuvem de incerteza sobre qual será o ritmo da recuperação econômica em 2021. Todas as atenções voltam-se para o término do auxílio emergencial, aumento do desemprego, indefinição sobre a implantação do novo programa de renda mínima, chamado de Renda Brasil, idealizado para modernizar e ampliar o Bolsa Família, e se o presidente Bolsonaro conseguirá organizar força política no Congresso Nacional suficiente para aprovar as reformas tributária, administrativa, o programa de privatizações e manter o marco constitucional do teto de gastos, sinalizando para o mundo em geral e aos investidores em particular que responsabilidade fiscal continua sendo um valor supremo da política econômica do país.

Vivaldo Lopes, economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia. É pós-graduado em  MBA Gestão Financeira Empresarial-FIA/USP  (vivaldo@uol.com.br)

 

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