Página - Raps: Presidente da CNM indica dívida de R$ 42 bi do governo federal
Raps: Presidente da CNM indica dívida de R$ 42 bi do governo federal
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Página Raps: Presidente da CNM indica dívida de R$ 42 bi do governo federal
Crédito: Roberto Stuckert Filho
A União fechou o ano passado com R$ 42,1 bilhões em despesas autorizadas, mas não pagas referentes a compromissos assumidos com os Municípios. Levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) indica que apenas no ano de 2020 foram inscritos R$ 25,4 bilhões em Restos a Pagar (Raps) relacionados a esse tipo de obrigação financeira com as prefeituras. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o presidente da entidade, Paulo Ziulkoski, apresentou dados que listam os ministérios com as maiores pendências com os Entes locais.
A maior parte do montante apresentado no estudo- cerca de 60% - corresponde a despesas não processadas (não liquidadas). Em finanças públicas, a liquidação é fase anterior ao pagamento na qual é necessário comprovar a entrega do material ou a prestação do serviço adquirido. No cômputo geral de Raps relativos a obras e serviços nos Municípios, o Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) é de longe a pasta federal com mais pendências: mais de R$ 11,7 bilhões. Em seguida, aparecem na lista os ministérios da Saúde (R$ 5,4 bilhões) e da Educação (R$ 5,3 bilhões). Essas três pastas concentram 53% do montante total de despesas represadas (R$ 42,1 bilhões) até o fim de 2020.
“Educação e Saúde são áreas em que o governo federal precisa gastar um mínimo [constitucional]. Eles empenham e não pagam”, resume Paulo Ziulkoski, presidente da CNM. Na quarta posição na lista montada pela Confederação aparece o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, com um total de R$ 1,92 bilhão em Raps inscritos.
Ziulkoski reconhece que “há muitos casos” de despesas não pagas porque as prefeituras não apresentaram a documentação ou os estudos técnicos necessários. “Mas tem, também, o Ministério da Economia segurando [o pagamento] na ponta”, diz o líder municipalista para depois acrescentar que parte do passivo foi herdada de anos anteriores.
Os dados compilados pela CNM indicam também que o volume de Raps quitados em 2020 foi de R$ 11,8 bilhões. Deste total, cerca de R$ 11 bilhões dizem respeito a despesas inscritas pela primeira vez em 2020, e R$ 830 milhões, de anos anteriores.
Acerto de contas
Especialista em finanças públicas, o economista Raul Velloso acredita que um “acerto de contas” entre a União e as prefeituras poderia amenizar a questão dos Raps referentes a obras executadas e serviços prestados nos Municípios. Secretário para Assuntos Econômicos do Ministério do Planejamento no governo José Sarney, Velloso defende com veemência um aumento do gasto público como forma de compensar efeitos recessivos da pandemia.
“Por que o governo federal não paga? Porque estão querendo fazer caixa. Querem gerar um resultado fiscal e, com isto, agradar ao mercado financeiro”, afirma. Procurada, a Secretaria do Tesouro Nacional (STN) informou que compete aos órgãos e ministérios efetuar seus pagamentos, inclusive os Raps, de acordo com a definição das prioridades da pasta.
Liberação de recursos
Em nota, o Tesouro esclareceu que cabe ao órgão apenas a liberação os recursos, de forma geral, atendendo a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO); os valores previstos na lei orçamentária e inscritos em Raps; e ainda a cronogramas e limites de pagamentos estabelecidos no decreto de programação orçamentária e financeira.
“Cumpre ainda destacar que, compete aos órgãos e ministérios efetuar seus pagamentos observadas as dotações orçamentárias, inclusive os Raps, de acordo com a definição das prioridades definidas no âmbito de cada pasta e de acordo com o atendimento de suas demandas, observados os cronogramas de pagamento de que trata o Decreto supracitado [de Programação Orçamentária e Financeira]”, informou a STN em nota, na qual recomendou o contato direto com os ministérios responsáveis pelas despesas listadas no levantamento da CNM.
“Não cabe à Secretaria do Tesouro Nacional ou ao Ministério da Economia interferir na alocação e priorização dos recursos distribuídos pelo órgão central aos órgãos setoriais”, concluiu o Tesouro na nota.
Um empenho - comprometimento de recurso orçamentário para fazer face a uma despesa - incluído na rubrica de Raps não processados significa, na prática, que não houve o reconhecimento da dívida. Pelas normas brasileiras de finanças públicas, esse tipo de Raps pode sofrer bloqueio ou cancelamento, explica Rafael Bragança, sócio do escritório Daudt, Castro e Gallotti Olinto Advogados.
Raps não processados têm de ser liquidados até 30 de junho do segundo ano subsequente ao de sua inscrição, sob pena de serem bloqueados pela Secretaria do Tesouro Nacional. Na prática, isso corresponde a um prazo de 18 meses para que os Municípios tomem providências para evitar o bloqueio, esclarece Bragança.
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