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Página - Município, do diamante ao estilo pacato de vida no hoje

Município, do diamante ao estilo pacato de vida no hoje

Efeito de Onda

Página Município, do diamante ao estilo pacato de vida no hoje

  • 09/11/2021 às 15:24

Fonte: Assessoria da Prefeitura

Crédito: Assessoria da Prefeitura

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Diamante gemológico sem igual no mundo inteiro. Fortunas da noite para o dia. Cabarés lotados com garimpeiros bêbados e mulheres recrutadas em Goiânia e no Nordeste. Bimotores DC-3 da Real Aerovias cruzando os céus e pousando no Aeroporto Eduardo Gomes embarcando e desembarcando compradores de diamante. Gado gordo criado a pasto nas invernadas nativas de topografia acidentada e muita aguada. Famílias com mães devotas ajoelhadas na matriz São João Batista e pais que dividiam o tempo entre o batente diurno e o carteado noturno. A realidade era essa, até que na década de 1990 o garimpo escafedeu-se. Ficou a pequena cidade arrodeada por metrópoles regionais que lhe pertenceram; ficou, também, a alegria de continuar levando a vida pacata num lugar onde todos se conhecem e o grande sonho não é sonhar, mas viver a rotina moldada ao longo de décadas com base nos costumes baianos dos primeiros moradores. Assim é Poxoréu, aos pés do Morro de Mesa, banhada pelo rio que lhe empresta o nome e que nesta terça-feira, 26, completa 83 anos de emancipação.

Poxoréu era distante de tudo e de difícil acesso. Tanto assim, que o senador Filinto Müller certa feita indo àquela cidade, pousou à margem da BR-364 no entroncamento para Dom Aquino, cidade no percurso. Pela manhã, Filinto reclamou da falta d’água para lavar o rosto e botou nome no estabelecimento: Pensão Seca. O outro acesso, para Rondonópolis, sequer existia; os 86 quilômetros do trajeto foram abertos à foice, machado e enxadão pelo garimpeiro mineiro radicado em Poxoréu, Jacinto Silva.

De tão rica Poxoréu levava o Banco do Brasil e tomar empréstimo local para pagamento de cheques e liberação de saques, quando suas reservas não suportavam. Prisco Menezes, ex-garimpeiro que ficou milionário emprestando dinheiro socorria o BB e sequer lhe dispensava tratamento preferencial. Mais rica ainda e longe dos caixas bancários, a cidade tinha sua verdadeira moeda circulante: o diamante, que pagava compra de dragas, veículos, sexo nos cabaré da Rua Bahia, roupas nas lojas e secos e molhados nos armazéns.

Política e politiqueira Poxoréu deu golpe de Estado na prefeitura depondo o prefeito e médico Antônio dos Santos Muniz abrindo caminho para Lindberg Nunes Rocha eternizar-se no poder. Mais tarde o mesmo Lindberg protagonizou um ato até então inédito no Brasil: seu mandato de prefeito venceu e ele elegeu sucessor o primo Lucas Ribeiro Vilela. Disposto a permanecer administrando Lindberg fez um acordo de cavalheiro com Lucas, mas o reforçou com uma procuração com amplos poderes: o parente não entraria na prefeitura durante seu mandato e ele cotinuaria comandando o município – ambos cumpriram o trato.

Na Rua da Bahia a festa era permanente. Na sua vizinhança o Diamante Clube reunia as famílias para monumentais bailes com grandes orquestras nacionais e o Conjunto Marinho e Seus Beats Boys, de Rondonópolis.

No campo, sem a força do agronegócio de agora, mas com vitalidade, além da pecuária, Poxoréu assumia a vanguarda do cultivo de fumo em escala comercial, na propriedade do mineiro José Nalon, no distrito de Paraíso do Leste. Em outro distrito, Alto Coité, o diamante corria solto e nasciam bebês que mais tarde seriam importantes em Mato Grosso, a exemplo de Louremberg Ribeiro Nunes Rocha, Bento Porto, Gerolino Lopes Aquino, Edivá Pereira Lopes, Amado Oliveira, Alecy Alves, Wanderley de Oliveira e outros.

Assoreado, o rio Poxoréu não tem volume represado suficiente para gerar energia na PCH José Fragelli ao lado da cidade. Engolido pela TV e a internet, o Cine Roma murchou. O implacável relógio biológico levou o farmacêutico Amarílio de Britto e sua fórmula implacável contra a gonorreia que atormentava garimpeiros e as mulheres dos cabarés. Passou.

Passou. O ciclo do diamante passou para extração manual, que movimentava garimpeiros e a economia, e sofre rígido controle ambiental pelo Ibama e o Ministério Público. Ficaram os antigos moradores e parte de sua descendência, pois a filharada descobriu mercado de trabalho nos ex-distritos de Primavera do Leste, Campo Verde, Rondonópolis e Jaciara – e também buscou o ensino superior nessas localidades. Além da população tradicional, também permanece na cidade o coração do missionário italiano Attilio Giordani, que o deixou sob o altar da matriz de São João Batista.

Os que ficaram se divertem no Balneário da Lagoa e anualmente assistem ao Encontro Nacional de Violeiros, que é uma das referências da música instrumental sertaneja no país. A vida segue em paz e sob o olhar vigilante do Instituto Histórico e Geográfico de Poxoréu (IGH) e a União Poxorense de Escritores (UPE) ambas lideradas pelo professor e historiador Gaudêncio Amorim.

Crescimento? Progresso? Modernidade? Não. Poxoréu não sonha tanto assim. Ao seu povo basta sua rica história e seu modo de vida.

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